Eu já perdi a conta de quantos alunos me procuraram nervosos, alguns dias antes de um Open Day da Emirates ou da Qatar, com aquela mesma pergunta: “Raph, o que eu faço para não ser cortado logo de cara?”. E olha, depois de anos preparando gente para essas seleções, aprendi uma coisa: o Open Day não elimina quem tem menos experiência. Ele elimina quem chega despreparado e sem entender o que os recrutadores estão realmente observando.
Então vou te contar aqui, sem enrolação, como esse dia funciona de verdade e o que costuma separar quem avança de quem volta para casa cedo.
Primeiro, não confunda Open Day com Assessment Day
Essa confusão é mais comum do que você imagina. O Open Day é a triagem inicial: você aparece, entrega os documentos, passa por uma primeira olhada na sua apresentação e troca poucas palavras com os recrutadores. É rápido e cruel, porque é aqui que boa parte das pessoas já é dispensada.
O Assessment Day é o processo longo de verdade: dinâmica de grupo, teste de inglês, teste de alcance, entrevistas. Só que atenção, porque em muitas seleções que acompanhei aqui no Brasil, as duas coisas aconteceram no mesmo dia. Ou seja: vá preparado para encarar tudo de uma vez.
O que realmente acontece nesse dia
A checagem de documentos parece boba, mas já vi candidato se atrapalhar aqui. Leve currículo em inglês, documento com foto, fotos recentes e o convite, se você tiver recebido um. Chegar organizado passa uma mensagem silenciosa de profissionalismo.
Depois vem a parte da apresentação, o famoso grooming. E aqui eu preciso ser honesto com você: os recrutadores reparam em tudo. Cabelo, unhas, a maquiagem, o caimento da roupa, tatuagem aparecendo. Não é frescura, é o padrão da profissão. A companhia está avaliando se você já “parece” tripulante.
Tem também o teste de alcance, o tal dos 212 cm. Você precisa alcançar essa altura, geralmente na ponta dos pés, porque é a altura dos compartimentos de bagagem. Parece detalhe, mas é eliminatório.
E aí chega a parte que, na minha experiência, mais decide tudo: a dinâmica de grupo.
A dinâmica de grupo é onde você ganha ou perde.
Vou ser direto: é aqui que a maioria escorrega. As pessoas acham que precisam “aparecer” o tempo todo, falar mais alto que os outros, dominar a conversa. É justamente o contrário. O recrutador está observando se você sabe trabalhar em equipe, porque é exatamente isso que um comissário faz dentro de um avião.
O que funciona, e eu digo isso por ter visto dar certo: fale logo no começo para ser notado, mas seja breve. Chame as pessoas pelo nome, isso mostra que você presta atenção nos outros. Ouça de verdade, faça contato visual, construa em cima da ideia do colega em vez de atropelar. Se ninguém estiver controlando o tempo, se ofereça com educação para fazer isso. E quando a sua ideia não for a escolhida, apoie a decisão do grupo sem fazer cara feia. Puxar o colega mais tímido para a conversa, então, é ouro, porque poucos fazem isso e os avaliadores percebem na hora.


Uma dica que passo para todo aluno: se pedirem para você falar por 30 segundos, fale por 30 segundos. Seguir instrução à risca faz parte do perfil de quem trabalha com segurança de voo.
E o inglês? Bom, é aqui que eu entro.
Como professor, não vou te enganar dizendo que dá para passar com inglês “mais ou menos”. Não dá. Em todas as etapas, na dinâmica, no teste escrito, na entrevista, o inglês fluente é o filtro final. E não é o inglês da escola, é o inglês de quem consegue se comunicar com naturalidade, entender um comando e responder com clareza, mesmo nervoso.
Esse, para mim, é o ponto que mais vale a pena trabalhar com antecedência. Todo o resto você ajusta em semanas. O idioma leva mais tempo, então comece cedo.
O que eu recomendo você fazer antes do dia
Pesquise a companhia a fundo, o estilo de serviço, os destinos, os valores. Tenha na ponta da língua três a quatro histórias suas de atendimento, trabalho em equipe e situações de pressão, usando a estrutura STAR (situação, tarefa, ação, resultado). Treine uma apresentação de um minuto sobre você. E cuide para descansar na véspera, porque esses eventos são longos e desgastantes, e a sua energia lá pelo fim do dia também é avaliada.
Para fechar,
O Open Day assusta, mas ele não é um bicho de sete cabeças. Ele recompensa quem chega preparado, comunicativo e com o inglês afiado. Já vi alunos sem nenhuma experiência prévia em aviação passarem simplesmente porque entenderam o jogo e treinaram para ele.
Se tem uma coisa que eu queria que você levasse deste texto, é: comece pelo inglês, cuide da sua postura e vá com confiança. A sua vaga internacional pode estar a um Open Day de distância.
Isenção de responsabilidade: as informações deste artigo têm caráter educativo e informativo e são baseadas em experiências e em processos seletivos públicos de companhias aéreas. Os requisitos, etapas e critérios podem mudar a cada campanha de recrutamento e variam conforme a companhia. Não garantimos aprovação em nenhum processo seletivo. Consulte sempre os canais oficiais de recrutamento de cada companhia aérea antes de se candidatar.
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